Diferenças no diagnóstico da DPOC de acordo com o género

Dr.ª Mónica Grafino

Pneumologista no Hospital da Luz Lisboa 

Póster

COPD diagnosis: differences according gender

A doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) resulta da interação entre fatores genéticos e ambientais. O tabagismo é o fator de risco melhor estudado, contudo, outros fatores parecem estar envolvidos. A influência do sexo ainda é controversa. Vários estudos reportam maior prevalência de DPOC nos homens do que nas mulheres, contudo dados mais recentes sugerem alteração deste comportamento. A mulher parece ter maior risco para os efeitos do tabaco com maior predisposição para desenvolver doença grave e precoce comparativamente aos homens.

Tendo em conta que a deteção e intervenção precoce dos doentes com DPOC é um dos

desafios e que os fatores de risco em cada um dos sexos parece ser diferente, o objetivo deste trabalho foi identificar as diferenças entre os sexos relativamente à prevalência e fatores preditores do diagnóstico de DPOC numa amostra de indivíduos com fatores de risco para DPOC.

Foram incluídos indivíduos com ≥40 anos e com história de tabagismo, ≥10 unidades maço ano (UMA), que realizaram espirometria entre setembro e dezembro de 2019 no Laboratório de Função Respiratória do Hospital da Luz Lisboa. Os indivíduos com diagnostico prévio de doenças respiratórias, sob terapêutica broncodilatadora ou sem sintomas respiratórios conhecidos foram excluídos. O diagnóstico de DPOC foi estabelecido se a relação FEV1/FVC após broncodilatador < 0,70. Modelos de regressão

logística de coeficientes padronizados e não padronizados para o diagnóstico de DPOC, para ambos os sexos, foram determinados utilizando como preditores a idade, o índice de massa corporal (IMC), tabagismo ativo, carga tabágica – UMA e a presença de sintomas respiratórios, de modo a comparar a importância relativa de cada coeficiente de regressão e odds ratios das variáveis, respetivamente. Um modelo de regressão logística global foi determinado incluindo o sexo e a interação com outros preditores. Um nível de significância de 0,05 foi considerado.

Foram incluídos 241 indivíduos, 134 (55,6%) do sexo masculino. A proporção de indivíduos com diagnóstico de DPOC foi de 21% (28 indivíduos) no sexo masculino e 13% (14 indivíduos) no sexo feminino, sem diferença estatisticamente significativa entre os sexos (p=0,156).

A idade foi um fator de risco para o diagnóstico de DPOC (homens: OR 1,052; IC95% 1,002-1,109. mulheres: OR 1,108; IC95% 1,021-1,216), assim como a presença de sintomas respiratórios (homens: OR 4,990; IC95% 1,863-14,544. mulheres: OR 3,818; IC95% 1,014-17,662) para ambos os sexos. O tabagismo ativo apresentou um maior risco, estatisticamente significativo, para o diagnóstico de DPOC nas mulheres (OR 7,5834; IC95% 1,545 – 62,870) mas não nos homens (OR 0,9317; IC95% 0,316-2,728).

No modelo de regressão de coeficientes padronizados nos homens, a presença de sintomas apresentou o maior coeficiente absoluto enquanto nas mulheres o tabagismo ativo foi o fator que apresentou maior coeficiente absoluto.

A interação entre o sexo e o tabagismo ativo foi estatisticamente significativo (p=0,048). 

Em suma, nesta amostra de indivíduos com ≥40 anos e com história de tabagismo, não se documentou diferença estatisticamente significativa na prevalência de DPOC entre os sexos. No entanto, diferentes fatores parecem conferir diferente risco para o diagnóstico de DPOC de acordo com o sexo. Mais estudos são necessários para melhor compreender as interações e mecanismos implicados, contudo, este estudo destaca-se por pretender fomentar o conhecimento sobre as diferenças entre os sexos na fisiopatologia da DPOC e nos fatores de risco para esta patologia.

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