Impacto da pandemia COVID-19 no controlo da tuberculose

Interna em Pneumologista no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho

Apresentação oral 

Pulmonary tuberculosis control: does COVID-19 have any effect?

Este trabalho surgiu da necessidade de evidências sobre o possível impacto da pandemia COVID-19 no controlo da tuberculose. De facto, é essencial compreender, reconhecer, antecipar e abordar os impactos negativos da pandemia para mitigar as consequências presentes e futuras. Em Portugal, os casos de tuberculose são orientados em Centros de Diagnóstico Pneumológico (CDP), responsáveis ​​pelo diagnóstico, tratamento e rastreio das populações com risco de tuberculose. No global, embora de forma reduzida e adaptada, a atividade clínica foi mantida durante a pandemia.

Este estudo teve como objetivo avaliar os possíveis efeitos da pandemia COVID-19 no diagnóstico da tuberculose pulmonar e rastreio de contactos.

Para isso, realizou-se um estudo observacional retrospetivo em doentes acompanhados no CDP de Vila Nova de Gaia. Foram incluídos doentes com tuberculose pulmonar confirmada diagnosticados entre março e dezembro de 2019 (pré-pandemia) e no mesmo período de 2020 (durante a pandemia). Foi comparado: características demográficas e clínicas; tempo desde o início dos sintomas até ao diagnóstico; tempo desde o diagnóstico até ao início do tratamento; tempo desde o diagnóstico até ao primeiro rastreio de contacto; e, número de contactos rastreados. Todos os contactos rastreados por caso-índice também foram incluídos; foi analisado se coabitação, círculo do contacto (familiar, trabalho ou social), data do primeiro rastreio de contacto e resultado do rastreio. Considerou-se rastreio positivo se deteção de tuberculose ativa ou tuberculose infeção latente.

Foram incluídos 27 casos-índice com tuberculose pulmonar confirmada em 2020 e 40 em 2019. Não houve diferenças em relação à idade, sexo, situação profissional ou características clínicas entre os dois períodos. O tempo mediano desde o início dos sintomas até ao diagnóstico e desde o diagnóstico até ao primeiro rastreio de contacto foi semelhante em ambos os períodos. O tempo mediano entre o diagnóstico e o início do tratamento foi ligeiramente maior durante o período pandémico. Não foram observadas diferenças no número mediano de contactos rastreados por caso-índice e a mediana da proporção de contactos com um rastreio positivo por caso-índice foi significativamente maior durante a pandemia.

Dos 1036 contactos dos doentes com tuberculose pulmonar que foram rastreados, 138 apresentaram um resultado positivo: 72 durante a pandemia e 66 no pré-pandemia. Destes, mais contactos coabitantes dos casos-índice tiveram um resultado do rastreio positivo durante a pandemia. Não houve diferenças estatisticamente significativas em relação ao círculo de contacto. Apesar de mais indivíduos com tuberculose infeção latente e menos casos de tuberculose ativa terem sido detetados entre os contactos rastreados durante a pandemia em comparação com o período pré-pandémico, as diferenças não foram estatisticamente significativas.

Em conclusão, apesar das restrições impostas pela pandemia COVID-19, este CDP permaneceu aberto e eficaz: embora o número de novos casos de tuberculose tenha diminuído, não houve atrasos significativos entre o início dos sintomas, diagnóstico e tratamento. Além disso, a taxa de contactos positivos aumentou, especialmente em coabitantes. No entanto, são necessários mais estudos para avaliar o impacto da pandemia COVID-19 no controlo da tuberculose em todas as vertentes de modo a entender e responder de forma apropriada.

Próxima notícia