O impacto da Pneumonia Associada aos Cuidados de Saúde em doentes admitidos num hospital do norte de Portugal

Lucía Méndez González

Enfermeira Especialista em Enfermagem Médico-Cirúrgica  no Serviço de Pneumologia do Centro Hospitalar de Entre Douro e Vouga

O impacto da Pneumonia Associada aos Cuidados de Saúde em doentes admitidos num hospital do norte de Portugal

 A pneumonia é a quarta principal causa de morte a nível mundial, sendo responsável por mais de 4 milhões de mortes por ano. Na União Europeia, a pneumonia continua a ser a causa mais frequente de morte por infeção, especialmente nos idosos e pessoas com comorbilidades. Em Portugal, a pneumonia é uma das principais causas de hospitalização e mortalidade. Em 2018 mais de 40.000 pacientes foram hospitalizados por esta causa.

As infeções associadas aos cuidados de saúde são infeções adquiridas durante o tratamento numa instituição de saúde, que não existia no momento da admissão. Causam internamentos prolongados, incapacidade prolongada e aumento da resistência dos microrganismos aos agentes antimicrobianos, o que supõe uma carga financeira adicional para os sistema de saúde, custos elevados para os pacientes e suas famílias, assim como o aumento da mortalidade.

A Pneumonia Associada aos Cuidados de Saúde (PACS) inclui qualquer paciente que tenha sido hospitalizado num hospital de cuidados agudos durante dois ou mais dias no prazo de 90 dias após a infeção; tenha residido num lar de idosos ou num centro de cuidados continuados; tenha recebido recentemente terapia antibiótica intravenosa, quimioterapia ou tratamento de feridas nos últimos 30 dias após a infeção atual; tenha frequentado um hospital ou clínica de hemodiálise; ou viva com um membro da família infetado com um organismo multirresistente. Dentro das PACS é importante destacar a Pneumonia Adquirida no Hospital (PAH), que se define como uma pneumonia que ocorre 48 horas ou mais após a admissão e que não estava em incubação no momento da admissão, assim como também a Pneumonia Associada à Ventilação mecânica (PAV), que engloba as pneumonias adquiridas após 48 horas de entubação endotraqueal. Pode ser classificada mais precisamente como de início precoce (até às primeiras 96 horas de ventilação mecânica e de início tardio (mais de 96 horas após o início da ventilação mecânica).

Em Portugal, os dados epidemiológicos para caracterizar as PACS são escassos, pelo que desenvolvemos este estudo com o objetivo de descrever as características epidemiológicas e microbiológicas dos doentes admitidos com pneumonia e descobrir o impacto das PACS no universo dos pacientes internados por pneumonia. Trata-se de um estudo descritivo quantitativo com análise retrospetiva dos processos clínicos de indivíduos hospitalizados com diagnóstico de pneumonia durante 1 ano (2018). Foram encontrados um total de 2436 indivíduos. Destes, 735 (30,2%) correspondiam a PACS. Foram encontrados 10 (0,4%) indivíduos com PAV e 193 (7,9%) com PAH. Os dados mostraram que 153 (20,8%) situações de PACS resultaram em morte. Em apenas 59 (2,4%) dos indivíduos, os agentes patogénicos foram isolados. Os agentes patogénicos mais frequentes foram a Kebsiella pneumoniae (37,3%) e Pseudomonas aeruginosa (13,5%). 

As PACS são uma das principais causas de admissão e mortalidade hospitalar por pneumonia. Além disso, a maioria das pneumonias são tratadas empiricamente com um baixo nível de microrganismos isolados. No topo da lista de isolamentos encontramos bactérias Gram-negativas, o que indica que a tendência de isolamentos respiratórios mudou nos últimos anos, destacando-se o aumento de isolamentos de microrganismos Gram-negativos em detrimento dos  Gram-positivos.

O impacto das PACS alerta-nos para a importância das medidas de prevenção e controlo das infeções nas instituições de saúde. O incentivo do estudo científico nesta área é essencial para a otimização dos planos de prevenção e controlo de infeções, que devem ser uma parte importante dos programas prioritários das instituições de saúde.

Portanto, é fundamental promover a vigilância das PACS como indicador de qualidade hospitalar, o que permitirá melhorar a segurança e qualidade dos cuidados prestados assim como a redução das despesas de saúde associadas.

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